Uma das coisas que mais me impressionam em futebol, é a falta de maturidade de muitos jovens que escolhem essa carreira como profissão. Conseguir fazer parte do elenco profissional de um time grande é mais ou menos como acertar sozinho na mega-sena. Mas isso exige muitos sacrifícios e dedicação. É preciso um diferencial, como ter personalidade forte e ambição, por exemplo. Além do talento, o jovem precisa principalmente de cabeça boa e muito foco nos seus objetivos. É muito fácil jogar fora uma carreira que poderia ser promissora.
Abaixo reproduzo o texto de César Cidade Dias, ex-dirigente do Grêmio, que conta uma de suas aventuras administrando a categoria de base. Uma boa ilustração de como funciona o mundo na cabeça dos adolescentes.
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"Migué" do craque
Cesar Cidade Dias
A história de hoje é a verdadeira tragédia cômica da vida de um dirigente de futebol. Na época eu era dirigente das categorias de base do Grêmio. Estávamos em época de pouco dinheiro e o time júnior do clube estava sem calendário, fazendo partidas amistosas pelo interior do estado e por Santa Catarina. O jogo do final de semana era em Campos Novos, no interior catarinense, a cerca de 8 horas de ônibus. Ou seja, uma indiada daquelas fortes. Mas, pelo Grêmio, tudo é válido.
Na sexta-feira, fazíamos um treinamento em Eldorado de preparação para o tal amistoso. Tínhamos no time alguns jogadores que viriam a se transformar em craques e tínhamos alguns craques que iriam se transformar em pagodeiros. Um dos nossos principais jogadores que, mesmo jogando muito (e jogava de verdade), já estava deixando de trabalhar para se dedicar as coisas normais da sua idade (mulheres, festas, bebida, etc...) e nós estávamos muito preocupado com ele.
Durante o treino, o nosso "craque" deixou o campo alegando uma dor muito forte na coxa esquerda. Médico, massagista e treinador saíram correndo para socorrer o jogador. O treino terminou e nós fomos conversar sobre o que faríamos. O médico, meu querido amigo, disse claramente:
- Cesar, com toda a responsabilidade, pra mim essa lesão é um "migué" daqueles. Ele não quer viajar e inventou essa história.
Deixamos Eldorado e voltamos para o Olímpico. Durante o retorno eu vim pensando no que fazer. Falei com o treinador, que também tinha tido a mesma impressão e, então, resolvi ser radical e criei uma loucura.
Decidi entrar no jogo dele. Chamei o jogador e disse:
- Estamos muito preocupados contigo. Vamos te levar com urgência para uma emergência e fazer um exame porque o teu caso deve ser grave. Falei com o médico e ele está muito preocupado.
Na época, o Grêmio tinha convênio com uma clínica próxima ao estádio Olímpico. Montamos todo o quadro e levamos o craque. Obviamente, nas lesões musculares, os exames são mais específicos e precisam de um prazo para serem feitos. Como tínhamos uma idéia de tentar "desmascarar" o nosso jogador, simulamos um exame.
Chegando ao Olímpico, mandamos o jogador para a sala de fisioterapia e deixamos ele esperando lá por cerca de uma hora. Neste período, eu, o médico e o treinador montamos o plano. A idéia era falar que o exame tinha assustado e que ele teria que engessar as DUAS pernas. O médico, por razões éticas, disse que não poderia participar disso. Logicamente, eu e o treinador compramos a bronca.
Entramos na sala de fisioterapia com cara de velório. Eu me sentei em um pequeno banco ao lado da maca e o treinador, com duas talas gigantes que serviriam para engessar as duas pernas nas mãos, sentou-se ao lado dele, na maca. Eu, então, comecei o discurso:
- Craque, é o seguinte. Tu precisa ser forte. O exame nos assustou muito. Tu tem lesões graves e o médico está avaliando o que fazer.
O jogador, de pronto, olhando para as duas talas, perguntou:
- Diretor, essas talas são pra quê?
Respondi:
- Parece que o pessoal vai ter que engessar as tuas duas pernas. O negócio foi feio mesmo.
E aí, veio a surpresa. O jogador, com a mesma cara, nos disse:
- Desculpa pessoal, devem ter trocado o exame. Eu não tenho nada, não estou sentindo nada. Fiz de conta para tentar não viajar porque amanha tem uma festa aqui perto e eu não queria perder. Podem me punir.
Saímos da sala em silêncio, com cara de poucos amigos. Caímos na risada logo após. Logicamente, levamos o nosso craque para Campos Novos e ele ficou no banco, jogando poucos minutos.
Esse jogador, como muitos com a mesma idade, tomou outro rumo e tem uma boa vida. Tenho boa relação com ele até hoje e damos risada quando lembramos desta história.
Eu costumo dizer que para ser jogador de futebol é preciso muito mais que talento. Eu respeito muito todos que chegaram porque sei do esforço que tiveram e da dificuldade que é estar onde estão. Futebol é para poucos. Por isso, pensem duas vezes na hora de menosprezar ou diminuir um jogador de futebol profissional.
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4 de março de 2015
9 de fevereiro de 2015
Os grupos políticos, os fakes e o amor pelo Grêmio
Nestes tempos de intolerâncias e cornetagens de todos os tipos, em que muitos defendem teses e grupos políticos ao invés de torcer para o Grêmio encontrei este post abaixo. E com a concordância de quem o escreveu, publico aqui. Acho que esta leitura deveria ser seguida de uma reflexão. Só isto.
_____Do Blog do Cesar Cidade Dias
Por mais de 20 anos da minha vida (tenho 45) vivi entranhado na vida política do Grêmio. Como sócio, conselheiro, fundador de grupo político e dirigente, passei a conhecer muitas pessoas e como elas agem quando estão no poder ou quando não estão. Fiz grandes amizades e alguns desafetos, o que é completamente normal. Gostaria de ter conhecido ainda mais pessoas, porque esse é grande
barato das relações associativas e políticas.
De um tempo pra cá, surgiram as redes sociais e com elas novas e caricatas relações. Amigos conseguiram se comunicar com mais facilidade mas a figura dos “fakes” deixaram o ambiente tenso. As redes sociais amplificaram o processo e, com isso, criamos mais desafetos do que criáramos. Porém, fomos mais ferrenhos na defesa dos nossos amigos e, assim, criamos laços mais fortes.
A patética briga entre lideranças políticas durante um jogo do Grêmio é de uma estupidez tamanha que lembra uma comédia de humor negro. E este é apenas um exemplo do nosso contexto atual. Este mundo político do clube está cada vez mais alimentando o ódio e discórdia.
Vou confidenciar uma coisa que foi muito difícil pra mim e que falei muito pouco até hoje. Durante
toda a minha vida tive o sonho de ser diretor de futebol do Grêmio. Alimentei isso em todos os meus
sonhos e durante todos os dias. Quando cheguei neste cargo me sentia pronto e preparado, sabia onde estava e porque estava. Fiquei pouco tempo e saí completamente decepcionado com tudo e isso refletiu diretamente na minha relação com o Grêmio. Passei a ter dificuldade até mesmo de assistir aos jogos. Deixei o conselho e o quadro social. Nunca mais consegui tirar da cabeça o tipo de crítica que usavam, utilizando imprensa e fakes, para atacar os que lá trabalhavam pelo bem do Grêmio.
E tudo, fui saber depois, tinha apenas um objetivo: o poder!
Aos poucos consegui entender e dividir as coisas. Olhando de longe, conheci como agem as pessoas de bem e como flutuam os de caráter duvidoso (e, principalmente, quem eles são). Vejo todos os dirigentes atuais do Grêmio como pessoas do bem, alguns ainda inexperientes, mas todos com muita vontade de ver o Grêmio vencer. O que, pra mim, já basta.
Retomei a minha alegria de ser gremista. Vejo os jogos, sofro e fico feliz novamente.
Uma rápida história sintetiza como retomei o meu convívio com o clube. Certa vez, o meu avô (falecido em 2000), que foi diretor jurídico do clube nas décadas de 40 e 50, me deu um conselho. Disse ele que se tudo estivesse dando errado e, por qualquer motivo, eu estivesse muito triste, eu teria apenas que dar uma passada no Olímpico que tudo ficaria mais leve, que o Grêmio era o grande laço de união da nossa família e que ali os bons pensamentos voltariam para a minha cabeça. Fiz isso muitas vezes de 2011 pra cá e sempre funcionou. O Grêmio tem sobre nós o poder de nos fazermos melhores, de sermos mais do que realmente somos. O Grêmio sempre conseguiu isso comigo.
Aprendi que o meu sonho de ser dirigente do Grêmio foi a maneira que eu encontrei de ficar o mais próximo possível do clube e me sentir bem, como havia sugerido o meu avô. E hoje, novamente, consigo viver o Grêmio intensamente, indo, lendo, escrevendo e, sobretudo, torcendo muito.
Espero, sinceramente, que o nosso gremismo supere a política, os fakes e o ódio que envolve o nosso clube. Todos os gremistas podem e devem contribuir da sua maneira para o bem do Grêmio. Acreditem! O Grêmio é a soma (e não a divisão) de todos os gremistas!
Postado por
seu Algoz
às
18:30
Os grupos políticos, os fakes e o amor pelo Grêmio
2015-02-09T18:30:00-02:00
seu Algoz
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